Quando usar crase: guia prático para concursos
Crase é preposição "a" + artigo "a". Veja o teste que resolve na prova, os casos obrigatórios, os proibidos e os facultativos que a banca cobra.
Crase é o encontro da preposição "a", exigida pelo termo anterior, com o artigo "a(s)" que a palavra seguinte admite (ou com o "a" inicial de aquele, aquela, aquilo). O acento grave só aparece quando as duas peças estão presentes ao mesmo tempo. Em "Entreguei o processo à secretária", o verbo entregar pede "a alguém" e secretária aceita o artigo "a": os dois se fundem. Em "Entreguei o processo a ela", a preposição continua ali, mas ela não aceita artigo, e o acento cai. Toda questão de crase se resolve com duas perguntas, nesta ordem: o termo anterior exige "a"? A palavra seguinte aceita "a"?
O verbete "Crase" do Manual de Comunicação do Senado Federal define o fenômeno como "a contração da preposição a com outro a, que pode ser artigo definido ou pronome demonstrativo" e fixa a regra geral: fora de aquele, aquilo e formas derivadas, a crase só ocorre diante de palavra feminina.
O tema tem endereço fixo em edital. O Edital nº 01/2026 do Ministério Público do Estado do Espírito Santo lista, no conteúdo de Língua Portuguesa, "Ortografia. Acentuação gráfica. Emprego do sinal indicativo de crase. Pontuação." O edital do concurso público de 2026 do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina traz o mesmo assunto numerado: "5.7 Emprego do sinal indicativo de crase." Este texto aprofunda um dos pontos abertos no guia de erros de português que mais reprovam em concurso.
O teste que funciona na hora da prova
Troque a palavra feminina por uma masculina de mesma função. Se surgir "ao", há crase; se surgir apenas "a" ou "o", não há.
- "Vou à Bahia" vira "Vou ao Acre". Crase confirmada.
- "Vou a Brasília" vira "Vou a Belo Horizonte". Sem "ao", sem acento.
- "Assisti à sessão" vira "Assisti ao julgamento". Crase confirmada.
- "Comecei a estudar" não aceita a troca: estudar é verbo, e verbo nunca admite artigo.
Para nomes de lugar, use a variante "para a / para". Se "para a" soa natural ("Volto para a Bahia"), o nome aceita artigo e a crase entra; se só "para" funciona ("Vou para Brasília"), o acento não existe. Os dois testes são atalhos de reconhecimento, e bastam porque a prova cobra decisão em segundos. Cuidado com os nomes de artigo facultativo, como Recife: o próprio Manual do Senado registra que ali cabem as duas formas, e por isso adota "o Recife", "no Recife".
Casos em que a crase é obrigatória
Locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas femininas. O Manual do Senado reúne uma lista de locuções em que ocorre crase com casos que caem direto na prova: "à noite", "à disposição", "à francesa", "à milanesa", "à mineira" e "às 6h".
Horas determinadas. "A prova começa às 8h." O "às" no plural denuncia o artigo feminino escondido em "as horas".
Diante de aquele, aquela, aquilo quando o termo regente pede "a". "Refiro-me àquela portaria." "Assisti àquilo sem entender."
"À moda de" subentendido, inclusive antes de nome masculino: "bife à Oswaldo Aranha". É a única situação em que o acento aparece diante de palavra masculina.
Casos em que nunca há crase
| Tem crase | Não tem crase |
|---|---|
| Cheguei à reunião. | Cheguei a pé. |
| Refiro-me àquela portaria. | Comecei a ler o edital. |
| A sessão começa às 14h. | Entreguei o ofício a Vossa Senhoria. |
| Bife à milanesa. | Estava a bordo do navio. |
| Voltei à Bahia. | Voltei a Brasília. |
| O imóvel está à venda. | Conversamos cara a cara. |
A lista dos proibidos se fecha assim: nada de acento antes de palavra masculina, de verbo no infinitivo, da maioria dos pronomes de tratamento, de pronome pessoal, de artigo indefinido ("Vou a uma audiência"), entre palavras repetidas ("dia a dia", "gota a gota") e diante de plural precedido de "a" no singular ("Enviei o ofício a pessoas estranhas ao processo"). A coluna da direita conversa com a lista de locuções em que não ocorre crase do mesmo manual: "a pé", "a cavalo", "a bordo", "a rigor", "cara a cara".
Os facultativos, onde a banca separa quem decorou de quem entendeu
Três situações admitem as duas grafias, e é aí que o enunciado costuma perguntar se o acento é obrigatório.
Pronome possessivo. "Entreguei o laudo à minha chefe" e "a minha chefe" estão corretos: o Manual do Senado registra a crase como facultativa nesse caso.
Nome próprio feminino. "Escrevi à Marina" ou "Escrevi a Marina". O mesmo verbete admite as duas formas.
"A distância". O verbete específico do manual explica que o acento é facultativo na locução adverbial formada pelo substantivo feminino e passa a ser obrigatório quando a distância é especificada: "à distância de 50 metros". Por padronização, o próprio manual recomenda escrever sempre com acento.
Em prova objetiva, tratar facultativo como erro é o deslize mais caro dessa matéria. Na discursiva o efeito é outro: acento grave fora de lugar entra como desvio de norma culta na correção, assunto que o guia de redação para concurso detalha.
Nomes de lugar, a dúvida que mais aparece
A crase diante de topônimo depende de o nome aceitar artigo. O verbete "Artigo definido" do Manual do Senado organiza a lista: dispensam artigo nomes como Alagoas, Goiás e Mato Grosso, enquanto "o Acre", "a Bahia" e "o Rio de Janeiro" o exigem; entre países, a maioria pede artigo, mas Portugal, Cuba, Israel, Madagascar e Angola não aceitam.
Cruzando essa informação com a regra da crase: "Vou à Bahia", "Vou a Alagoas", "Vou a Portugal", "Vou à França". O teste do "para a" chega ao mesmo resultado sem exigir a lista decorada.
Perguntas rápidas
Tem crase em "às 14h"? Sim. Hora determinada exige o acento, porque a preposição "a" encontra o artigo feminino de "as horas". O acento cai quando a preposição que abre a frase não é "a": em "entre 14h e 16h", entre não pede o "a", então não há o que contrair.
"A distância" leva crase? É facultativo enquanto a distância não é especificada. Vira obrigatório em "à distância de 50 metros", e o Manual do Senado recomenda usar sempre o acento por padronização.
Por que "a partir de" não tem crase? Porque partir é verbo no infinitivo, e verbo não admite artigo. Sem artigo, falta o segundo "a" para se fundir com a preposição. Já em "a fim de" o motivo é outro: fim é substantivo masculino, e palavra masculina não aceita o artigo "a". Duas causas diferentes, mesmo resultado.
Tem crase antes de nome de cidade? Só quando o nome aceita artigo feminino. "Vou a Brasília" e "Vou a Curitiba" ficam sem acento; "Vou à Paris de 1920" leva, porque o especificador faz o nome pedir artigo.
Onde treinar até virar automático
O curso de Português para concursos tem uma aula dedicada a regência nominal e crase, que trata os dois temas na ordem em que o edital cobra: quem rege, o que vem depois, quando o acento entra. São 28 aulas no curso, cada uma com questões na sequência, no formato descrito em como estudar por questões. O índice das aulas fica aberto em Português, e dá para ver como as aulas são produzidas e o catálogo de cursos antes de decidir; para começar hoje pela crase, crie sua conta. Se o plano for varrer os outros pontos que derrubam candidato, o caminho é voltar ao guia de erros de português que mais reprovam.
Fontes
- Manual de Comunicação do Senado Federal: verbete "Crase"
- Manual de Comunicação do Senado Federal: verbete "a distância / à distância de"
- Manual de Comunicação do Senado Federal: locuções em que ocorre crase
- Manual de Comunicação do Senado Federal: locuções em que não ocorre crase
- Manual de Comunicação do Senado Federal: verbete "Artigo definido"
- Edital nº 01/2026 do Ministério Público do Estado do Espírito Santo (FGV)
- Edital do concurso público de 2026 do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina (FGV)
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